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terça-feira, 20 de março de 2012

Espelho quebrado


Diante da tela vazia
meu coração clama por palavras
que ainda não sei onde estão.
Procuro nos confins de mim mesma
a resposta para o vazio de agora
e só encontro um eco
a eclodir desejos, medos e sonhos...
Salto por entre os sonhos,
dedilho teclas,
rascunho imagens nas palavras
que debulham aos meus olhos,
que se escondem por trás dos meus medos.
Sou esse louco
que taciturnamente
persiste a ouvir o coração,
tolo, sem juízo, mas verdadeiro.
E nas transparências do que sou,
escondo a mulher
que verdadeiramente existe,
pois há tanto de mim nas minhas palavras
e tão pouco ainda revelado
nos sons que elas produzem.
A pequenez de agora
esconde os assombros da memória
e o medo de ser eu mesma se alteia
no papel branco...
que compõe os versos de minh’alma.
Sou como o barco a velas
que o vento conduz,
sem rumo, sem norte,
mas com a certeza de que nada existe
sem sonhos ou metas.
Ainda não há um porto
para ancorar meus receios,
nem tão pouco podem explodir desejos.
Falta-me a mão que passeia comigo,
ou por mim,
que desvaira e me faz desvairar...
Falta-me o abraço sincero,
o suspiro de saudade,
a lágrima de despedida
que terá a minha integridade e verdade.
Falta-me a face
que desenhará certezas,
que contornará temores,
que permitirá terremotos sísmicos. 
Falta-me o sonho
que perturba meu sono.
Falta-me o som de uma voz
a invadir meu tenebroso silêncio.
Falta-me uma presença
que preencherá 
essa tão prolongada ausência.
Sou um ser aprendendo 
a conviver consigo mesmo,
a vencer medos,
a subir degraus,
a se ver falho,
pequeno
e ao mesmo tempo invencível...
Sou esse ser
que ainda não se convenceu
de que a vida tem espinhos,
mas também perfumes...
Sou o olhar dissimulado
que interroga sem palavras,
a voz que se alteia
e que se cala para ouvir o coração.
Sou o fragmento
que se decompõe
na poeira da ampulheta
e que se reconstrói
no reflexo do espelho quebrado.
Sou o medo desfeito,
o desejo perfeito
em busca desse sonho rarefeito.
Diante de mim,
apenas palavras desvelam-me,
descortinam e camuflam a insipidez de agora,
a falta de nitidez
que torna tão cinza os meus dias
e tão desventurosa a minha jornada.
Sinto vontade de, aladamente,
cavalgar pelas minhas emoções
e encontrar não apenas a faísca de minha fuga,
mas o destino similar de outrora,
que levou a imagem
e deixou a saudade.
É preciso se ver sem fugir,
aceitar a sombra
e bem dizer a luz.
Tocar e desvendar segredos,
sem ferir ou ser ferido.
Viver é um aprendizado único...
e é preciso aceitar os desafios,
ser nós mesmos,
destituídos de medos ou máscaras,
verdadeiramente íntegros,
porque somos únicos,
somos tudo e nada ao mesmo tempo.
Estamos aqui,
mas não da forma que nos vemos.
Vivemos o milagre,
a dádiva de sermos humanos e eternos.
E a profundidade do que somos
não permite enxergarmos o reflexo
que traduz a nós mesmos.
Vemo-nos pelos cacos de um espelho irreal.
Vemos um espelho quebrado...
construindo um quebra-cabeça de formas e planos.
Não conseguimos juntar as peças
e nos ver como verdadeiramente somos,
por isso perambulamos
pelos segredos da alma
em busca de respostas e/ou esperanças.
Incompreendidos e incompletos...
buscando pedaços
de um espelho quebrado...
de um ser único!

Um comentário:

  1. Adorei o seu poema, espelho quebrado, foi como se estivesse a olhar para mim própria,

    Paulinasalvador@gmail.com

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