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sábado, 2 de junho de 2018

MEMÓRIA


Realidade atroz me apavora...
Ando a esmo pela rua deserta...
A tessitura do agora em horas me desdobra...
E vejo vestida de prata a lua desperta...

É noite escura aqui dentro...
E lá fora outra noite se desvenda...
A fantasia borda meus sonhos: epicentro.
E eu olho a imagem no espelho: sem máscara ou venda!

Qual é a senha deste enigma egocêntrico?
Onde estou? Acordada ou em transe?
Perambulo pela orla de mim mesma: excêntrica.
Tateando as sombras e os resquícios: sente... pense...

Perto do que aqui dentro me escacaram...
O caos lá fora é ínfimo, ainda que sem fim pareça...
Despedaçam-se os fatos, criam-se pós- verdades: a tudo mascaram
Delineando conjunturas distorcidas sobre nossa cabeça...

E de tudo que a travessia me roubou agora quero tanto
Apenas sentir o calor das suas mãos sobre mim...
Por  favor, beija-me lentamente assim...
A memória precisa de decorar com detalhes todo o canto...

Ouça a música, que em noites como esta, fez-nos viajar
Entrelaçados ao luar, quis tanto por mais tempo sonhar...
Enxuga as lágrimas desta alma que cansou de chorar...
Embala as afinações que nos fazem despertar...

Psiu! Silêncio!!!
Não me acorde deste devaneio que me permitiu encontrar
Nas brumas do passado, os cacos do que sou: prenúncio...
Ah... desejo, na verdade, a entrega, o êxtase, o oásis: a-cor-dar!

quinta-feira, 24 de maio de 2018

TESSITURA DA VIDA



A vida se tece no fio tênue da memória
E como Pandora ora trancafiamos segredos
Ora abrimos a caixa e os permitimos sair
Dentro, mora sonhos ingênuos
Para os quais escancaramos as portas do coração
Lá... Camuflamos a mesmice dos dias mornos
Lá... Fantasiamos... 
Entregamo-nos às brumas
Abraçamo-nos, longamente, à imagem intacta
E nem percebemos que lá fora...
O tempo dispara, 
Corre veloz e nos atropela...
E, de repente, vemos nossa alma estilhaçada...
Precisamos desesperadamente acreditar
Que ainda é possível transmutar a realidade...
Que ainda é possível acordar além da letargia
Ali... Desponta as asas da borboleta errante
Estavam presas à teia de Aracne
Que desenhava os sentidos roubados por outrora
É preciso cuidar do enlace
Do corpo que urge se sentir vivo
Da alma que deseja conhecer sua essência
Costuramos os momentos
Entrelaçados aos sonhos
Que se fazem nas entrelinhas
Mas ainda não sei onde estou
Qual é o bordado que tenho desenhado
No meu caminhar taciturno?
O tear enreda-me, arrasta-me, devasta-me
E de repente me olho do avesso
E percebo que ainda está inacabado
Este é meu lado certo
Revira-me: memória de história aleatória
Remendando a travessia de cicatrizes
Porque nem tudo está no lugar certo
E o avesso sou eu... solta, livre, torta...
Esperando, curiosa, ali, bem, à sua porta...

segunda-feira, 9 de abril de 2018

(Des)água



Água flexível enche o copo na medida?
Transborda por todos os poros...
Fugaz demais no curso da vida...
Liquidez que nos transmuta...
Fluidez que nos esvazia...
(Des)configurados, perdemos nosso porto
Ainda pertencemos às nossas raízes?
Pontilhados pelas (des)costuras do tempo...
Ousados, desenhamos asas aflantes...
O desejo de voar é imenso, insano, descomunal...
Alquebrados em gotas, pisamos a terra
Pairamos, ávidos de sonhos,
Perplexos de inconsistências,
(Des)dobramos a voz da alma...
Desbravamos labirintos e (des)caminhos,
Soçobrados de (in)certezas,
Vemos evaporar nossa essência...
(In)seguros em forma, formato, formatação?
Almeja-se toque, som, cheiro... Luz e sombra...
“Insight” desejado, esperado, vívido?
Oásis de emoções (des)medidas de sentido?
Deserto árido de saudades (des)conhecidas?
Sou água límpida cristalina
Ou barro, lama, pauis, brejo, pântano?
Mistura de sagrado e profano... Apenas Ser Humano!

terça-feira, 13 de março de 2018

Sentidos




Ah... A intensidade tem um preço alto demais
Muitas vezes nos transborda...
Entorna, contorna, transforma...
Há de se querer sempre mais...

Meandros ambíguos... Polissemia...
Caminhos de palavras (des)contextualizadas...
Metáforas que (trans)figuram a travessia...
Magia de figuras poéticas( inter)textualizadas...

Há uma dificuldade inerente em mensurar os sentidos:
Afinal nem sempre se sabe qual direção seguir...
Muito menos se há mesmo para onde ir...
Destituímos significados e nos percebemos perdidos...
  
Ressonância do que escamoteamos,
Ciência de nossa própria essência...
Verso e inverso que unificamos,
Dedilhando a ambivalência: (con)vivência...

Tateamos o que os olhos não podem alcançar...
Degustamos o agridoce das percepções adormecidas...
Vislumbramos a penumbra que encobre o mar...
Imensidão de vozes a sussurrar sensações vividas...

Ouvimos a voz do coração clamando para ser ouvida...
Serão apenas melindres que nos tocam as emoções?
Concepções infundadas, desconexas ou convicções?
Certamente há tempestades de razão mal resolvida

Atenção, sentido!
Falta-nos tanto para ser inteiro...
Aparte, há se sentir parte primeiro...
Fluído flexível em outra forma contido..

Rompem-se as algemas o (res)sentido...
Cicatrizes, marcas, estigmas (pres)sentidos...
Para em duelo vermo-nos lapidados e (des)temidos...
Há de se permitir ser asas, voar, para ter sentido!

domingo, 15 de outubro de 2017

Liquidez


Não se pode deter o tempo
Não há as pretensões de antes, joguei-as ao vento
Nem mesmo a audácia que me fazia atirar-me, sem medos,
Às emoções intensas e insanas que sinto escorrer entre os dedos
Busca-se o equilíbrio... Ah como é difícil provê-lo!
E mesmo que fosse possível é, no seu (des)ajuste,
Que se compreende a importância de mantê-lo!

Deixo em tuas mãos água que me deságua
Despejo aqui os despojos de qualquer mágoa
Há que seguir comigo a bagagem mais leve
Ainda que nos sonhos ainda me entregue
Roubam-me a ilusão e derramam sobre mim a razão
Inteira conduz-me ao delírio, ao abismo... ao céu
Ah... quisera reter as areias que escorrem feito água ao léu...

Ajoelho-me aos pés de meus sonhos (des)feitos
São memórias, emoções, suspiros -  sentidos
De ontem e de hoje invertidos e revestidos
Traduzem o ser inexato que sou
Já que me sinto equidistante da perfeição
Sigo e persigo aperfeiçoar-me ... doravante
Ainda que muitas vezes veja-me tão errante!

quinta-feira, 20 de julho de 2017

PRESENTE


Um dia você acorda
E percebe que desperdiçou muito tempo
Desejando demais o que não podia ter

Um dia você acorda
E descobre que já chorou tudo que tinha para chorar
Que não há mais lágrimas... é preciso, portanto, Acordar

Um dia você acorda
E vê que se contentou tantas vezes com migalhas
Enquanto havia outro céu esperando por você

Um dia você acorda
Desejando, além da conta, viver
E percebe que as areias já se despejaram na ampulheta

Um dia você acorda
E se dá conta que cresceu e se arrefeceram seus sonhos
Sente que a vida se esvai, feito areia, por ente os dedos...

Um dia você acorda
Olha, ao seu redor, e constata o caos
Ah... tão pouco foi construído e tanto destruído

Um dia você acorda
Sentindo-se em cacos e revira os escombros de si mesmo
Para descortinar sombras que nos fazem adormecer

Um dia você acorda
E nota que já não há tempo para brincar de conto de fadas
Desperdiçou-se tudo: sonho, tempo, energia... agora só resta o vazio

Um dia você acorda
E buscando sair da letargia, fugir deste abismo
Sente a vida toda pulsar no âmago de si mesmo

Um dia você acorda
E vê quão cinza você pintou seus dias
E que há, novamente, cores despejadas, magias, alegrias...

Um dia você acorda
E percebe que nem sempre temos o que queremos
Mas a vida nos dá tudo o que, de fato, precisamos

Um dia você acorda
E vê que, embora não seja mais criança,
Há uma vida desmedida pronta para florescer... ainda há esperança...

Um dia você acorda
E resolve dar mais cor à sua vida: despertar
E deixa a janela aberta para a luz do sol em você adentrar

Um dia você acorda
E prefere deixar o passado no passado: ausente
Já que o futuro não chegou ainda... e só lhe resta o PRESENTE!

Um dia você... A – COR - DA
E percebe... e sente... e vê...
Que tudo só depende de você... A - COR - DE!



segunda-feira, 17 de julho de 2017

(INDIGN)AÇÃO

De volta à senzala!
Silenciaram, novamente, a democracia...
Olvidaram nossos direitos...
Direitos?
Quem vocês pensam que são?
Miseráveis!...
Pensaram, por certo tempo, ser gente?
Mas não!... Vocês são povo!
E povo é massa de manobra...
Fantoche nas mãos dos poderosos...
Vocês não têm direitos!
Apenas deveres: trabalhar, trabalhar, trabalhar...
Lutar por um país mais justo, digno, decente e honrado?
Será? Parece que preferem a Casa Grande
Acham bonito quem manda, quem dá ordens:
“Manda quem pode, obedece quem tem juízo!”
Somos nós mesmos que recebemos estas ordens...
E pouco importa quem as cumpra, de fato....
Afinal, leis são leis, deveriam ser para todos...
São mesmo para todos?!...
Talvez...
Mas...Se houver dinheiro e poder...
Tudo muda, afinal, as leis servem apenas para alguns...
Ricos que se beneficiam delas e saem ilesos depois de crimes terríveis,
Pobres que as desconhecem  e são condenados, sem serem culpados...
“Coitado, do ladrão de galinha ou do faminto”!...
Ainda que sejam muitos os desvalidos
Esta parece ser uma luta vencida pela minoria...
Já que a maioria pacífica... escória da nação
Foi atirada novamente à senzala!
Está presa ao calabouço das ilusões...
Aceitam tudo que é imposto em nome da paz
E  nos acovardamos diante da cruel realidade:
Cassaram nossa alforria!
Sim, já não somos mais livres,,,
Em nome da segurança, da “moral”, da “ética”, dos “bons” costumes...
Usurparam nossa liberdade
E nós? E você?  E o resto?
Ah... fomos todos silenciados: “psiu”!
O que vemos, ouvimos ou vemos?
Pouco ou nada importa
Já não adianta gritar?
O medo selou de vez nossa voz?
Armaram-nos uma cilada
Estamos todos encarcerados nesta armadilha
A violência nos é cada vez mais escancarada
A boca cerra e range os dentes de dor
A quadrilha nos rouba a verdade
E engolimos em seco
Estamos sendo usados, esculpidos e enjaulados
Na cela fria do consumismo desenfreado
Manipulados por uma ideologia imposta pela elite
Tirem as mãos que tapam seus ouvidos: escutem o clamor do povo!
Abram os olhos: desvendem os fatos que escancaram a verdade!
Não se calem ante o que se vê ou se ouve!
Não sigam à manada, nem se acovardem ante as imposições!
Não sucumbam à ditadura das horas mortas, dos tempos frios!
Acordem, amigos!
Acorde, amor!
Acordai, meu querido povo sofrido!
Indignai-vos! Indignai-vos! Indignai-vos!
Indignemo-nos!
Indigna nação, levante-se e diga: “Não!...
Não à ação desmedida de quem tudo tem
E sempre quer mais, mesmo que para isso
Tire do que pouco ou nada tem o pouco que lhe resta
Levante-se, povo, e proteste:
“Eis... Aqui, nossa imensa indignação!