domingo, 15 de outubro de 2017

Liquidez


Não se pode deter o tempo
Não há as pretensões de antes, joguei-as ao vento
Nem mesmo a audácia que me fazia atirar-me, sem medos,
Às emoções intensas e insanas que sinto escorrer entre os dedos
Busca-se o equilíbrio... Ah como é difícil provê-lo!
E mesmo que fosse possível é, no seu (des)ajuste,
Que se compreende a importância de mantê-lo!

Deixo em tuas mãos água que me deságua
Despejo aqui os despojos de qualquer mágoa
Há que seguir comigo a bagagem mais leve
Ainda que nos sonhos ainda me entregue
Roubam-me a ilusão e derramam sobre mim a razão
Inteira conduz-me ao delírio, ao abismo... ao céu
Ah... quisera reter as areias que escorrem feito água ao léu...

Ajoelho-me aos pés de meus sonhos (des)feitos
São memórias, emoções, suspiros -  sentidos
De ontem e de hoje invertidos e revestidos
Traduzem o ser inexato que sou
Já que me sinto equidistante da perfeição
Sigo e persigo aperfeiçoar-me ... doravante
Ainda que muitas vezes veja-me tão errante!

quinta-feira, 20 de julho de 2017

PRESENTE


Um dia você acorda
E percebe que desperdiçou muito tempo
Desejando demais o que não podia ter

Um dia você acorda
E descobre que já chorou tudo que tinha para chorar
Que não há mais lágrimas... é preciso, portanto, Acordar

Um dia você acorda
E vê que se contentou tantas vezes com migalhas
Enquanto havia outro céu esperando por você

Um dia você acorda
Desejando, além da conta, viver
E percebe que as areias já se despejaram na ampulheta

Um dia você acorda
E se dá conta que cresceu e se arrefeceram seus sonhos
Sente que a vida se esvai, feito areia, por ente os dedos...

Um dia você acorda
Olha, ao seu redor, e constata o caos
Ah... tão pouco foi construído e tanto destruído

Um dia você acorda
Sentindo-se em cacos e revira os escombros de si mesmo
Para descortinar sombras que nos fazem adormecer

Um dia você acorda
E nota que já não há tempo para brincar de conto de fadas
Desperdiçou-se tudo: sonho, tempo, energia... agora só resta o vazio

Um dia você acorda
E buscando sair da letargia, fugir deste abismo
Sente a vida toda pulsar no âmago de si mesmo

Um dia você acorda
E vê quão cinza você pintou seus dias
E que há, novamente, cores despejadas, magias, alegrias...

Um dia você acorda
E percebe que nem sempre temos o que queremos
Mas a vida nos dá tudo o que, de fato, precisamos

Um dia você acorda
E vê que, embora não seja mais criança,
Há uma vida desmedida pronta para florescer... ainda há esperança...

Um dia você acorda
E resolve dar mais cor à sua vida: despertar
E deixa a janela aberta para a luz do sol em você adentrar

Um dia você acorda
E prefere deixar o passado no passado: ausente
Já que o futuro não chegou ainda... e só lhe resta o PRESENTE!

Um dia você... A – COR - DA
E percebe... e sente... e vê...
Que tudo só depende de você... A - COR - DE!



segunda-feira, 17 de julho de 2017

(INDIGN)AÇÃO

De volta à senzala!
Silenciaram, novamente, a democracia...
Olvidaram nossos direitos...
Direitos?
Quem vocês pensam que são?
Miseráveis!...
Pensaram, por certo tempo, ser gente?
Mas não!... Vocês são povo!
E povo é massa de manobra...
Fantoche nas mãos dos poderosos...
Vocês não têm direitos!
Apenas deveres: trabalhar, trabalhar, trabalhar...
Lutar por um país mais justo, digno, decente e honrado?
Será? Parece que preferem a Casa Grande
Acham bonito quem manda, quem dá ordens:
“Manda quem pode, obedece quem tem juízo!”
Somos nós mesmos que recebemos estas ordens...
E pouco importa quem as cumpra, de fato....
Afinal, leis são leis, deveriam ser para todos...
São mesmo para todos?!...
Talvez...
Mas...Se houver dinheiro e poder...
Tudo muda, afinal, as leis servem apenas para alguns...
Ricos que se beneficiam delas e saem ilesos depois de crimes terríveis,
Pobres que as desconhecem  e são condenados, sem serem culpados...
“Coitado, do ladrão de galinha ou do faminto”!...
Ainda que sejam muitos os desvalidos
Esta parece ser uma luta vencida pela minoria...
Já que a maioria pacífica... escória da nação
Foi atirada novamente à senzala!
Está presa ao calabouço das ilusões...
Aceitam tudo que é imposto em nome da paz
E  nos acovardamos diante da cruel realidade:
Cassaram nossa alforria!
Sim, já não somos mais livres,,,
Em nome da segurança, da “moral”, da “ética”, dos “bons” costumes...
Usurparam nossa liberdade
E nós? E você?  E o resto?
Ah... fomos todos silenciados: “psiu”!
O que vemos, ouvimos ou vemos?
Pouco ou nada importa
Já não adianta gritar?
O medo selou de vez nossa voz?
Armaram-nos uma cilada
Estamos todos encarcerados nesta armadilha
A violência nos é cada vez mais escancarada
A boca cerra e range os dentes de dor
A quadrilha nos rouba a verdade
E engolimos em seco
Estamos sendo usados, esculpidos e enjaulados
Na cela fria do consumismo desenfreado
Manipulados por uma ideologia imposta pela elite
Tirem as mãos que tapam seus ouvidos: escutem o clamor do povo!
Abram os olhos: desvendem os fatos que escancaram a verdade!
Não se calem ante o que se vê ou se ouve!
Não sigam à manada, nem se acovardem ante as imposições!
Não sucumbam à ditadura das horas mortas, dos tempos frios!
Acordem, amigos!
Acorde, amor!
Acordai, meu querido povo sofrido!
Indignai-vos! Indignai-vos! Indignai-vos!
Indignemo-nos!
Indigna nação, levante-se e diga: “Não!...
Não à ação desmedida de quem tudo tem
E sempre quer mais, mesmo que para isso
Tire do que pouco ou nada tem o pouco que lhe resta
Levante-se, povo, e proteste:
“Eis... Aqui, nossa imensa indignação!

domingo, 30 de abril de 2017

Em boa hora


Às vezes a vida se esvazia como uma folha em branco
É a alma que não consegue ser silenciada
É o coração que pulsa forte em descompasso
É a emoção desmedida do poeta tosco
É a solidão trancafiada no baú de Pandora
É um lado perdido em mim que silenciosamente chora!

Às vezes preciso transbordar
É que o copo dos dissabores encheu
É que desmesuradamente sou emoções
É que não posso mais conter o silêncio
É que há palavras latejando dentro da mente
É que a taça dos desejos despeja-me... devora!

Às vezes preciso a-cor-dar
É que a cor dos sonhos debotou a realidade
É que a vida se tornou insipida demais
É que preciso sentir e ter sentido
É que preciso viver e ter vivido
É que a mala está novamente pronta... é hora!

Às vezes é preciso partir para chegar
É que os (des)acordos convencionais não mais convencem
É que as tristezas já me despedaçaram
É que o inteiro quebrou-se em cacos
É que sou mosaico colando meus (des)pedaços
É que tudo se foi e eu também preciso ir embora

Às vezes é preciso tirar os óculos e ver o que ninguém vê
É que nem sempre conseguimos achar a direção certa
É que nem sempre nos apontam o caminho certo
É que tudo se liquefaz nestes tempos insanos
É que não sabemos se há mesmo para onde ir
É que  não conheço tudo que em mim mora

Às vezes preciso da dor para me encontrar
É que a palavra afiada degolou os sonhos
É que sobrou pouco do pouco que fui
É que talvez, um dia, quem sabe... haja todo
É que tudo não foi suficiente, embora fosse tanto
É que nada se perde... se transforma...é sempre... em boa hora!



quinta-feira, 2 de março de 2017

Alento

O sentir em mim
Faz-me desbravar o tempo sem fim
(Des)cortinar a poesia que desnuda a alma
E revelar nas metáforas torpes a calma
O ser amorfo (trans)borda sonhos na palma

Ando distante dos versos
Incubando a metamorfose da poesia
Não sei se quero ser (des)coberta: (in)versos
Ou se prefiro me camuflar em metáfora deserta?
Onde estou? Perdida? Esquecida? Em travessia...

Há em mim uma dualidade míope
Meus olhos se perderam no vento etíope
E este aprisionou o coração que vos fala
Triste cantar de vozes de outrora
Entoam histórias, memórias... dentro ou fora?

Fora o tempo que aprisionou o ser que chora?
(Des)pedaços de sonhos, de sombras 
Quem sabe uma nova aurora?
Ah... triste gemido aprisionado por hora
Grito que rompe madrugadas alambras

Fragmentos de poeta torto
Que (re)avivam  o ser absorto
(Des)mascara calmaria, sacode pesadas penas
Abre asas aflantes e verbos errantes
Palavras (des)bravam ,(res)lavram, retinem triunfantes!

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Borboleta

Versos amorfos pulsam em minh'alma
É preciso (trans)bordar palavras
Cravou-se no âmago
Lança que com fogo dança
Ah... A vida...  Vez ou outra...
Coloca-nos em xeque
Será mate ou arremate?
Vemo-nos (des)orientados...
(Des)iludidos... (Des)preparados...
A vida não permite ensaios:
É uma sequência de momentos inéditos.
O inesperado nos assalta...
Às vezes nos assombra...
Não há controle...
Não tenha pretensões: reme...
Mas, quando se está à deriva,
Deseja-se vislumbrar um farol...
Aprender a conduzir bem o leme
Seja em meio às tempestades...
Seja em mar calmo e dias de sol...
Ah... Essa maldita impetuosidade de poeta...
Que grita impropérios!
Busca... Clama... Chora...
Onde está o equilíbrio?
Razão?  Emoção?  Ambas?
Nada pode, de fato, ser planejado
Tudo, de repente, pode  ser transformado
Em um segundo... pode tudo mudar
Então em gotas (res)pingam palavras
Chovem... Choram... Respiram...
Despejo-me na poesia
Ah... Mas a página vazia não detém,
Nem contém meu vazio
Derramo-me e me espraio
Debulho-me... Transbordo-me...
E nos versos que dedilho...
Acaricio a alma que chora
E o caos que me devora
Enfim... Deixo-me metaforizar
Perco-me para me encontrar
E assim me deixo inteira na travessia
Desmorono-me em estilhaços
Vou me permitindo transmutar
Palavra disforme: metonímia a voar
Mergulho-me nestas entrelinhas
Não para me esconder,
Mas para me achar
Já não posso mais reconhecer:
Era lagarta... 
Agora... Sou Borboleta!

domingo, 23 de outubro de 2016

Sentido

Quando a vida em mim grita
Palavras ultrapassam o sentido
Desmedidamente tocam o vivido
Faz-se, enfim, poesia que suscita

O canto triste deu lugar à nova melodia
Ainda nos primeiros acordes
Já desmoronam desculpas torpes
Que construíam o castelo da fantasia

Quis fazer de conta
Que era suficiente, ainda que tonta
Não queria ver o que me afronta
Desfazer meus nós e de novo estar pronta

Diante do descabido abandono do sonho
Vejo delinear outro caminho
Ainda que tivesse, a esmo, num tropel medonho
Perdida, esquecida, à espera do bisonho

Há que se sentir o indubitável
O impensado, quiçá irremediável,
Torna descabido o desejo incontrolável
Que ficou lá no fundo... intocável

A razão desdobra-me em incógnitas
Mas a coração o dilúculo escancara
Pode-se até mesmo quebrar a cara
Ao abrir os olhos diante de emoções remotas

A vida, vez ou outra, nos surpreende
Impõe-nos regras e preceitos
Cabe a nós calar ou rever conceitos
Dedilhar o intangível que nos prende

Presente: momentos fugazes na trajetória
Enigma: ponta de iceberg que nos dá pistas
Daquele  que se constrói ao destruir sofistas
Insights singulares desenham em mim : nova história!



domingo, 16 de outubro de 2016

(Trans)bordar

A alma que sou não cabe cá dentro
(Des)dobra-se em versos desmedidos
Em sentimentos desmensurados
Sempre em busca do epicentro

Este desdobramento de emoções (des)conexas
Revira as areias da minha ampulheta
Rompe paradigmas, retira-me da gaveta
Desmoronam-se certezas côncavas e convexas

Há marcas que não podem ser apagadas
Em mim... Ainda latejam e gritam
Outras se fazem cicatrizadas e silenciam
Estão lá no fundo, no âmago, cravadas

A palavra é o espelho do sentido
O verso reflexo do vivido
As entrelinhas despejam o incontido
O imensurável desejo descomedido

Transborda em poesia
A vida que lapida a alma em travessia
Urdidura singular e divina: via que me desvia
Ousadia de sentir em demasia

Aquilo que silenciou o indubitável
Agora escancara o quão sou frágil assim
Ecos e gritos nos confins deste meu sem fim
Vejo o que sempre neguei... Ah... poeta miserável

Deste-me asas e me roubaste a utopia
Tenho a clarividência, a lança,
Mas minh’alma já não alcança
A luz que enfim me conduziria

A sentir ou ir a algum lugar além do abismo
Abriste as janelas do conhecimento
E, agora, já não ignoro o sofrimento
Saber arrasta-nos ao ostracismo

Por que me deste a (in)consciência poeta incansável?
Ainda colo os cacos da alma quebrada
Mosaico (des)configurado de voz alquebrada
Horizonte delineando o devir: és fugaz, poeta venerável!

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Anjo meu...



Meu olhar, um dia, cruzou o teu
E esse frenesi ainda me provoca arrepio
O que dizer do tempo que tivemos?
Do tempo que nos despejamos?
Do tempo que esperamos?

Que muito foi desejado
Que muito foi plantado
Muito foi dividido
Vivido
Muito mais sentido

Cumplicidade
Dualidade
Intensidade
Plenitude
Êxtase

Em teus braços fui tudo
Perdi tudo
Deixei tudo
Roubaste-me tudo
Deixaste o vazio

Esvaziei-me de palavras
Despejei-me na poesia... inteira
Esvai-me... inteira
Entreguei-me... inteira
Esqueci-me por inteiro

Deste-me o mel
Fizeste-me tocar as estrelas
Ah, anjo meu, foste o pecado e o perdão
Foste meu céu e meu inferno
Foste, um dia, sem se despedir

Rendo-te graças
Rogo aos anjos por ti
Que encontre a paz que nunca tive
Que vivas o amor que nunca pode ser meu
Que sejas inteiro em tudo que for teu!


domingo, 28 de agosto de 2016

Medida Exata

Ah, o amor que, vez ou outra, vem e me arrebata
Que inteira me (des)orienta e (des)conserta
Emocionalmente me devora e devasta
Deixa-me só, a esmo, nua, (des)coberta

Alma em cacos se revela
Os sonhos se (des)norteiam e  eu me perco de mim
Solidão me leva e me desvela
Dá-me asas que se abrem neste espaço do sem fim

Ínfima como grão de areia
Mergulho no inferno da existência
Busco a medida exata entre o suplício e a poesia
Já que o céu subjaz a essência

Escombros desmantelam-me em mosaico
Fagulhas, partes, metades que inteiras se precisam
Além da indumentária social ou do prosaico
Debruçam-se nos ombros que me abraçam

À espera de outro tempo
Quiçá uma nova história
Capítulos nos (per)passam a limpo
E descortinam sombras da memória

Ilusões, frustrações, tentações
Despedaçam todas as nossas certezas
Arranham as mais seguras convicções
Ao vento, atiram medos e dúvidas pela correnteza

O ser que se ergue das cinzas no ar
Acredita ainda nos sonhos do amor
Não este que se verteu em pó e dor
Mas outro que aplaca asperezas e de novo faz (a)mar!