quinta-feira, 6 de março de 2014

Violinos



Ouço o marulho,
Sinto o vento frio...

Meus pés descalços tocam a areia fina...
É noite e pouco posso ver...

Já que a lua se esqueceu de mim...
Deixou-me a sós com as estrelas...

A escuridão externa espelha-me
Tateio meus sonhos, mas só há cacos...

Preciso de (re)fazer –me em mosaico...
(re)mexer cores e formas...

Desenhar na alma uma mandala...
Repleta de símbolos, sons e significados...

Sentimentos plenos de magia...
Todos os elementais em harmonia...

Descobertas... revelações:
Lagarta em metamorfose!

Meus olhos estão fechados
Zéfiro vem abraçar-me inteira

Ainda perdida perante a arca das sombras...
Vejo-me como Pandora...

Diante do tempo, as alegrias se debulham...
Afastando a agonia, a tristeza e as lágrimas...

Há todo um abismo em mim:
Acho que estou pronta...

Acordes de violinos me fazem acordar
É preciso dar cor ao cinza dos meus dias

Queria emprestados os versos de amor...
Foram-me roubados...

Talvez ontem...
Quem sabe no outono...

Será que ficaram perdidos...
Estarão dançando na Times Square?

É hora de renascer feito Fênix...
Deixar a luz adentrar e afastar espectros de medos...

Duelar com mil segredos e  em muitas notas
Compor a música que faz dançar a alma!


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Porvir


Fui o maltrapilho que teve a vontade roubada
Esta expressão suprema que nos faz únicos
Que viu seus sonhos se despedaçarem
Pela imposição da sombra e a força do medo

Sou borboleta metamorfoseada
Ainda sinto receios de alçar voos altos
Tenho medo de altura
Mas preciso desesperadamente  das nuvens

Fui escrava do destino
Que por puro comodismo
Preferiu ficar quieta a lutar por si mesma
Que se deixou levar ao invés de conduzir

Sou protagonista debulhando histórias
Palavras distraídas compondo versos
Lapidando –se, esculpindo-se
Duelo de emoções e memórias

Fui coadjuvante de minha própria vida
Cega, deixei-me seduzir pela ilusão
Que me levou ao abismo, ao abandono
Ao vazio de mim mesma, a uma profunda solidão

Sou o que fui... transmutado
Fui o que sou... revelado
Dúbios caminhos que se intercruzam
Passado e presente dedilhando o agora e o porvir!

Viajante


Viajante de páginas vazias
Estou à espera dos sentimentos
Que desejam ardorosamente  se preencher
Com as emoções mais loucas e também sublimes...

Meus olhos foram silenciados pela distância
E no vazio entreposto
Mergulhei no abismo infindável do ser
Na busca insolente do tempo...

Perdemo-nos e nos encontramos
Tantas vezes, em muitas faces,
Nesta e noutras vidas...
Suplantamo-nos em disfarces...

De tudo que fui, resta-me cacos:
Do tempo que se foi,
Da pessoa que outrora vi,
Dos sonhos que se perderam...

Tudo que sou é saudade...
Que guarda o cheiro de jasmim,
O mesmo daquele jardim
Que se delineia para mim...

Minhas rotas de palavras rotas...
Perdem-se das rimas
Deslocam-se mar adentro...
Querem o mergulho: o epicentro...

Meus sonhos buscam contornos etéreos,
Formas diáfanas plasmadas na saudade
Desejam o mordiscar da voz,
Anseiam pelo toque das mãos frias em foz...

Meu agora espera pelo ontem...
Intercruzando tempos remotos...
Ah... quisera sentir o que deixamos dormir...
Ah... quisera poder acordar dentro deste sonho!

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Travessia

Página vazia de sonhos
Por onde perambulam enigmas
Esgrimam-se desejos
Duelam máscaras
Segredos

Doce som a acariciar a alma
Voz imponente
Que me pede calma
De outras eras
Ah...  Quimeras

Meus versos divagam ao léu
Atiram-me ao abismo sem fim
Fazem-me tocar o céu
Transbordam-se em mim
Tão piegas
  
Ao mergulhar na arca do tempo
Sinto o sabor acre
Pedaços de mim
São levados pelo vento
Ah... triste lamento

Despejo-te versos
Sem métrica, rima ou encanto
Sou o grito, o espanto
O riso e o pranto
Mero acalanto

Estou aqui
Sim... sou eu
Sussurro-te memórias
Estamos em tantas historias
Psiu...

Palavras em travessia
Algumas pronunciadas
Outras silenciadas
Pura dicotomia
Poesia


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Dúvida



Mesmo pairando sobre mim uma dúvida cruel
resolvi ceder aos encantos das palavras
que quase sempre me convencem
me vencem... me exaurem...

Mesmo me sentindo inadequada
fora do contexto
resolvi deixar de lado
qualquer tipo de pretexto

Mesmo que meus versos desconexos
muito de mim revelem
ou por inteiro me camuflem
sem medo de parecer tola ou piegas entrego-os

Mesmo desejando despejar-me inteira
me perco dos meus sonhos
entre as rimas de minhas quimeras
resquícios, saudades, precipícios

Mesmo tendo a esperança roubada
preciso desatar nós
desaguar-me em foz
rabiscar um reflexo fosco de nós

Mesmo tendo perdido a chave
que abre o baú dos segredos
chamo por Deus
pedindo clemência pelos erros

Mesmo debaixo das metáforas
encarcerada nas entrelinhas
entreabro a janela a sorrir
respiro fundo e enfim posso te sentir

Mesmo que não tenha resposta
precisava te entregar meu devaneio
queria o abraço do sonho
o entrelaçar do vento que se perdeu no tempo

Mesmo sem entender
consagro o que sinto
ainda que não seja nada
traz-me a luz perdida, profanada

Ah... aqui estão fiascos
quem sabe um coração aos pedaços
vejo-me cega à procura de um guia

nesta poesia clamando pelo amor e sua magia...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Transmutar-se



A vida nos prepara
Vez ou outra
Para nova metamorfose

Detém nossas desilusões
Coloca-nos num invólucro
Suga nossa alma: profusões

Encurralamo-nos em nós mesmos
Passamos despercebidos
Não vemos, nem vistos somos

Tudo tem seu tempo
Transformando-nos
Muitas vezes, ao sabor do vento

Alada borboleta sobre flores
Desdobrando-se
Em sonhos multicores

Vida nova noutra forma
Renovando-se
Em constantes quebras de paradigma

Leves levas elevas
Espantando sombras
Luz desfazendo trevas

Aflantes asas
Despejam-se
Sobrando brasas

Sacudindo poeira
Ergue-se como Fênix
Meras fagulhas na lareira

Abra os braços
Suba os degraus
Vença todos os percalços

Abra os olhos e veja:
Atire-se, sem medo, no precipício
Alce voo, sorria, sinta, viva!


domingo, 15 de dezembro de 2013

Conto de fadas às avessas


Como num conto de fadas às avessas,
Vestiu-se com sonhos para dançar à luz da lua cheia,
Queria ser diferente,
Quem sabe cantar nas noites quentes de verão?!...
Esperava... Esperava... Esperava...
Como princesa encantada, acordar desse sono profundo,
Mas não havia príncipes, nem sapos...
Apenas escolhas: histórias de amor, quase sempre,
Inacabadas e incompletas, desfilavam-se em desilusões...
Na busca inconstante, o vazio se perpetrava...
A falta de amor próprio e a ausência de autoestima
Destituíam-lhe de si mesma...
Despida de esperanças, via o caos imperar...
Ia se perdendo por intrínsecos (des)caminhos...
De pés descalços pisava a areia fina e clamava aos céus:
O que fizera de si mesma? O que devia procurar?
Onde se perdera? Quem era?
Quantas dúvidas... tantos medos...
E nos confins da alma, encarcerava-se...
Já não lhe restava mais do que cacos...
A escuridão não lhe permitia contemplar-se...
Sentia o perfume das flores, mas não via o jardim...
Acorrentava-se aos sonhos de menina,
Mas não se percebia...
O tempo sempre é implacável
E, à medida que as areias desfilavam na ampulheta,
A vida lhe cobrava o despertar...
A menina tinha ficado em alguma esquina...
Quem agora andava pela praia
Era uma mulher, desencantada, mas madura,
Repleta de cicatrizes invisíveis, contudo viva...
Incomodada pela letargia,
Colava seus cacos, enfim reagia...
Já não seria mais possível esperar
Pelo “Foram felizes para sempre”...
Porque  estes finais “(in)existem”...
Não há fim... Estamos no meio da história...
É preciso compreender as incongruências do ser...
Ver-se como protagonista de uma história real...
Repentinamente, abriu os olhos,
Para mirar-se naquele espelho perturbador:
Via uma mulher e suas marcas...
Era tão diferente do que imaginava...
Não era o que pensavam, nem o que queria...
Havia equívocos... tanto na superficialidade...
Quanto mais na profundidade...
Seu olhar refletia o que escamoteava:
Muito do porvir para concretizar...
Pouco do ontem a se materializar...
Era uma mulher comum: nem feia, nem bonita...
Nem doida, nem santa; nem demônio, nem anjo,
Nem princesa, nem bruxa...
Seu reflexo era torpe, seu sorriso melancólico,
Mas sua essência tão humana e tão divina
Que a permitia tocar o céu, sentir o mar...
Ser o sal e o mel de um mesmo olhar...
Desmanchou-se em enigmas e fez desabrochar:
Quimeras desfolhando-se em primaveras,
Estilhaços em mosaicos...
Perfumando um novo amanhecer...
No espelho uma nova face se via... Multifacetada...
Apenas uma mulher e todos os sonhos do mundo!
Ainda havia um quê de menina...
Tinha em si a ingenuidade e a malícia...
Acreditava no divino, mas vivia o profano...
Era ao mesmo tempo a deusa e a feiticeira...
O sapo e o príncipe desencantado...
Era a princesa que dormia e o lobo que a engolia
Era, de alguma forma, aquela mesma menina
Num desvario, num suspiro, num corpo de mulher!


sábado, 30 de novembro de 2013

Poeira de Estrelas

A poeira da travessia impregna-se na minh’alma...
Desmesuradamente perambulo pela praia...
Busca-se o perdido...  Talvez, no coração esquecido.

Nuances de sonho em chamas, em sal se derramam,
No vento se proclamam matizes de sol...
Que de mim se despedem, duelam e me transformam.

Assombros do ontem reluzem...
Vertem-se em luz as sombras de alquebradas ilusões...
Lágrimas e versos que tão bem me traduzem.

É preciso se soerguer, sorrir e agir...
Despedir-se da dor e das desilusões...
Transpor a passagem secreta e se abrir...

Vislumbrar a felicidade:
Tão delicada e tão bem delineada...
Ver além do visível... Transbordar: liberdade!

Deseja-se o que não se pode ter...
Ultrapassar, exceder-se, sobrepujar
A névoa que não se pode deter...

Perpassa-nos  tão breve e faceira...
Dá-nos o sabor do mel, deixa-nos o sal...
Toca-nos a magia e se esvai como feiticeira...

Asas escamoteadas, esquecidas, esmaecidas,
Decepados: anjos de uma asa só...
Tiveram seus sonhos roubados...

Há apenas lágrimas, desejos e pedras...
Encobertos por palavras, perfumes de flores raras...
Sorrisos esculpidos, delineados ou estarrecidos...

Em busca de outra asa  que os faça voar...
E o céu na Terra tocar... Ah que bela quimera!
Agora, urge esquecer a escuridão, essa pantera!

Almas imperfeitas,  anjos caídos ao léu...
Debulham...  Espelham-se...  Esfacelam...
É fundamental buscar o nosso céu...

Felicidade: grande utopia! Insights corporificados...
Sombras que dançam... Transbordam enganos, sem dó...
Somos assim, por instantes: anjos...

Abrem-se os olhos e tudo que se vê é pó...
Segredos de abelhas... Poeira de estrelas...
Na vida, somos meras centelhas!

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Palavras em metamorfose

Palavras em travessia...
Tempestade em mim...
Ninguém a percebia...
Há apenas um sabor acre sem fim...

Palavras perfiladas em resma...
Diziam-me que roubaram meus sonhos:
Destituíram-me de mim mesma
Ainda não sei o que resta... Há medos?

Palavras grafadas na areia...
Confesso que ainda não sei...
Vejo-me caminhar pela praia
O mar está frio e eu tão só...

Palavras sussurradas ao vento... as verti...
Permita-me revelar um segredo:
“Meus versos estão tão vazios de ti...”
Sinto-me tão distante... em degredo...

Palavras silenciadas pela razão...
Debulho-as sobre o papel...
São cacos de um coração,
Mosaico de fugaz ilusão...

Palavras perfumadas pela dor...
Suaves ferem... Escondidas pela dor...
No meio das esperanças e dos espinhos...
Fazem-nos chorar e sorrir... só ao sentir, amor...

Palavras espelhadas em versos...
Resquícios  dedilhados... pássaro que voou...
Quimeras e tantos devaneios imersos
Porvir? Borboleta que se metamorfoseou...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Catedral de Sal


Aqui desmancho-me...
Despedaço-me...
Despeço-me
Das agruras e dissabores...
Estou em busca de mim nos labores.

Montanha Russa de sonhos
Despeja-se sobre mim...
Pedaços do passado (des)feitos...
Fragmentos de quimera (re)feitos
Em tantas cores e sons...

Sopram-se os ventos...
Desfazendo nós e tormentos...
Minguam as ilusões...
Gosto acre na boca...
Imagens, sabores, cheiros: profusões!

É preciso entreabrir a alma...
Respirar um sopro da utopia
Que no passado ficou...
Abrir a janela da travessia:calma!
Ver o que repousa, o que restou...

Pisar suavemente por vias íngremes...
Deslizar pelos torvelinhos...
Encontrar onde ninguém alcança
Um pouco de paz...
Quem sabe  esperança?!...

Onde estão meus passos?
O tempo sempre breve...
Tortura a sombra...
Busca a luz...
Sinto a alma leve...

A esmo, caminho pela praia...
À procura de uma direção...
Quem sabe o céu?...
Quem sabe o mar
Com todo seu azul leiam-me o coração?...

Quem sabe todo esse sal
Transforme-se em mel?
E leve assim esse gosto de fel...
Transmutando as intempéries...
Reerguendo-me feito catedral.

Meus versos são palavras de amor...
Que debulho feito lágrimas...
Compõem o que sobrou...
São restos de mim...
Depois da tempestade e da dor!