domingo, 3 de abril de 2016

Capitu


A liberdade para mim
Nasceu flor -  jasmim
Transmutou-se em borboleta
Deu-me asas por onde eu for

O tempo me roubou de mim
Não me contentava em ser menos
Desdobrava-me para ser mais
Nada me é suficiente assim

Recusei-me a ser Amélia
Para ser parte do todo feito tu
Despedi-me da plateia
Preferi ser Capitu

Olhos oblíquos e dissimilados
Exibem a coragem de se ver
Ver o que se prefere tanto esconder
Imagens de rostos desfigurados

Recusei-me a ser Amélia
Por que queria ainda mais
Não me saciava a mesmice
Que calei na meninice

Ah, preferi Capitu
Tonta de sonhos
Recoberta de sombras
Pronta para ser mais

Não sei se Capitu é mais
Se Amélia é menos
Mas quero antes a intensidade
Que da outra a sanidade

Quero o gosto de pecado
Tão perturbador
Nego a calmaria da vida morna
Atiro-me longe no arpoador

Ah... Amélia és tão sensata
Mas eu não sei sê-lo
Talvez seja mesmo louca feito Capitu
Que voa longe e inquieta feito borboleta

quarta-feira, 16 de março de 2016

Anjo Barroco


Menino de olhar perdido
(Des) encantado
Alma errante silenciada
Será mesmo anjo?
Caído ou decaído?^
Quem sabe um querubim?
Anjo brincalhão
Que duela com palavras
Poeta (des) mistificado
À margem de si mesmo
Estarás à sombra?
Ou apenas preferiste fechar teus olhos?
Esqueceste tuas asas
E a capacidade inexorável de voar?
Torto, (in) conformado, (im) completo...
Vieste humano inacabado
A tentativa de se perfeiçoar
E como num espelho
Ao outro poder se afeiçoar
Abra-te ao novo
Atira-te ao abismo
(Des) conhecimento
Volta a sonhar
Afasta-te do medo
Esquece o que te assombra
Levanta teu olhar
Não precisas ser anjo
Muito menos barroco
Não te deixes mergulhar no pântano das ilusões
Nem aceites apenas silenciar, calar-te...
Enxerga, pois, a luz que há em ti...
Seja quem tu és...
Em essência...
Em verdade...
Homem, menino, humano...
(Im) perfeito feito todos nós!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Tentação



A vida em sua plenitude desenha ondas sobre o mar
Às vezes maré alta arrasta-nos às desilusões
Noutras calmaria nos ensina a sonhar

Sinto o eriçar das ondas de asas
Menino, homem ou anjo vem em sonho me tocar
Deslizando sobre mim, feito poeira de estrelas

De olhos fechados me permito dançar
Duelando com as emoções
Que não me ensinaram a amar

Acreditei na ilusão que me faria voar enfim
Matizes angelicais, sentimentos irracionais
Talvez aquarelas dedilhadas sobre mim

Atiraste-me ao vazio e, num instante, fez-me pó
Quis dar asas a quem nunca quis voar
Penas, que pena, era anjo de uma asa só

E assim torto não me perimiste pensar
Desejei a doçura do céu, sorver da tua boca o mel
Devaneio arrastado pela imensidão do mar

Roubaste-me a utopia insólita
Devolveste-me ao abismo de outrora
Arremessaste-me à insipidez inóspita

Foste, de alguma forma, anjo meu
Que mais me tentou do que guardou
Que me levou de mim e me deixou

Pisoteaste a flor da ilusão
Ao ver o que está além do espaço-tempo
Ensinaste-me a sobreviver sem paixão

Aprendi que não me contento com metade
Quero tudo:  inteiro, pleno, divino e profano
Enfim, a dor ensina:  amar não traz só felicidade!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Asas


Diante do sonho,  a voz da intuição ordena
"Erga-se das cinzas,  abra suas abas...
Inspire a energia universal...
Permita-se renascer tal qual Fênix! "

A alma errante, ainda perdida,
Vê -se diante de um novo tempo:
Presente que a eleva entre planos,
Viagem para dentro de si mesmo.

Lá no jardim secreto do inconsciente,
Dormem os sentimentos e as emoções,
Desconhecemos a nós mesmos
Até despertarmos da letargia.

“Abra os olhos,  sinta suas asas
Você está (re) nascendo agora!”
É um ser que tem livro arbítrio...
Dentro de você descobertas descortinam sua existência.

Novas cores definem sua aquarela,
Desenham outro tempo...
Tempo de se conhecer,  se perceber,  se ver...
É hora de esquecer o passado e aprender a amar de novo!


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Dádiva

Olho longe o infinito a se desenhar em espiral...
Perco-me no que imagino e desejo ver,
Ouço as partituras do meu coração bater...
Descompasso fremente sem igual

A vida segue seu curso, busca-se a foz:
Não se podem deter instantes singulares
São sempre fugidios e fugazes..
Transbordam dentro e se derramam em nós!

Rasga-se o tempo de outrora em tom prosaico:
Fragmentos multicores reconfiguram o mosaico,
Outro recorte – pedra em forma de flor:
Será possível enfrentar seja lá o que for?

O precipício à frente se plasma:
Os passos turvos delineiam o caminhar...
Caminhante voluptuoso almeja a música fantasma
E a alma se converte num sonho a dançar...

Pés descalços pisam espinhos e sombras,
Olência perturba devaneios, altera a direção...
Deseja-se o céu, mesmo em pleno deserto.
Oásis? Toca-se a areia em frenesi: paixão!

De onde vem esse cheiro de flores?
Onde estará plantado o horizonte sonhado?
Acordes de violoncelo desdobram-se em dores
Despe a alma encantada à procura do amado

Ser amorfo olha-se no espelho quebrado:
Quem é este que me desnuda a alma perdida?
A face triste, alquebrada, contorcida...
Transmuta-se num sorriso – Dádiva – Presente esperado!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Entre tantos (des)caminhos

Nas entrelinhas do amor, deslizam-se palavras
Hora constituem versos, hora nossa história
Hora  há  prismas, noutra se embaralham rimas:
Metáforas desalinhadas desfilam pela memória

Desenham momentos vividos,
Repletos de silêncios e beijos
Esperam por outros sonhados
Repletos de volúpia e desejos

Entre a utopia e a bagagem
Vejo delinear-se travessia
Entre o medo e a coragem
Verbos sussurram poesia

Despejam-se sobre mim
Gotas de insônia, torrentes de flores
Pintam-se esperanças multicores
Gestos perdidos no espaço sem fim

Entreaberta a janela, respiro o sonho
Gosto de céu, cheiro de chuva, sabor de mel
Entrefechada a porta, vejo-te chegar e ir
Quase sempre sem demora o estar e o porvir

Ergo o olhar aos céus, felicidade em prece,
Já não mais  peço, por tudo agradeço
Deixo o beijo no abraço que enternece
Nada sou... Aqui... há muito mais que mereço!

domingo, 6 de dezembro de 2015

Mirante



Labirintos da alma intercruzam nossas histórias...
Olhar que me rouba a calma... Dejavu de memórias
Somos segredos aprisionados pelo tempo e pelas escolhas
Camuflamos a realidade em nuanças de sonhos dourados
Dedilhamos, perscrutamos, vivemos...
O gosto de céu em insghts de felicidade
Instantes breves, fugazes, singulares
Tanto sentir... muito querer...
Perdidos na eloquência do desejo
Já não me é suficiente a ausência
A boca além do beijo há que se ter
Medos se descortinam
Na inconstância me despejo
Nas brumas que se desmancham
Feito escombros de outrora
Vejo delinear-se o mosaico de agora
Cicatrizes costurando o passado no presente
Dentro-fora... aqui – além...
Quero tanto seguir em frente
Todavia ainda me embaraço
Esbarro no que há em minha mente
Nada está quieto em mim
A quietude não me contenta
Tudo em ebulição: metamorfose
Frágil feito lagarta                                      
Seria mais fácil no casulo me manter
Mas da mesmice estou farta
Gaiolas, grades, prisões já não podem me deter
Vislumbro a ponte do porvir
Quebro arestas, rompo grilhões...
Mergulho no abismo inefável do sentir
Asas aflantes de borboleta errante
Desdobram-me feito poeira de estrelas
Inconstante como o mar, a brisa ou o barco a velas
Quero antes meu porto, meu mirante:
Plenitude...

Amor... Amado... Amante!

domingo, 4 de outubro de 2015

Caixa vazia



Despido de preconceitos
Entrega-se sem máscaras
O eu poético esquece-se de seus preceitos
Verte desejos em palavras desconexas
Tantas vezes sem rimas ou métricas
Foca a essência: seu âmago
Insuficiente, inconsequente, inconveniente
Senta-se à beira do caos e revira a razão
Esgueiram-se as areias atemporais
Nelas impregnam-se os sonhos e a emoção
Secam-se os olhos de madrugada
A lua eleva a tempestade do coração
Marcas indeléveis ali (co)existem
Sopram os suspiros do porvir
Entreabrindo a caixa de Pandora
Vê-se o espelho de Oscar Wilde
Imagem disforme, dor sem hora
Quis tocar o céu e atirou-se ao mar revolto
Debulham surreais metáforas ignotas
Expiram perfumadas memórias
Gritos fantasmagóricos desvanecem
Embalados pela música de uma nova era
É preciso fechar a porta do ontem
Abrir a janela além-tempo
Ser rio a deslizar para o mar que impera
Vença a escuridão!
Ouça o clamor do vento:
Sal que tempera? Quimera? Quem dera?
Adridoce aroma comedido
Mosaico de espera destituído?
O eu poético lembrou-se do procedimento
Despido de medos ou anseios
Veste a imagem que lhe cabe
E faz adormecer em si mais uma poesia
Será fim?
Camufla sua agonia?
Magia em enigma...
Enfim...
Palavras,  palavras, palavras...
Quem sabe, agora, uma caixa vazia
Pronta a encher de versos  a sua travessia!

Perfumes da Memória


Onde estão perdidos os meus sonhos?
Aonde foram?
Para onde me levaram?
Pistas, índices, marcas, rastros...
Houve, um dia, alguém que pisou minha areia...
Mas veio o mar com sua força descomunal
E arrastou as fagulhas do pensamento...
Soprou todos os segredos ao vento...
Tão pouco restou...
Quase nada sobrou:
Fragmentos, cacos,
Escombros de cristais coloridos...
Reminiscências de encontros doridos
Toques inesquecíveis,
Carícias que afagaram a alma...
Não trouxeram suavidade,
Roubaram a paz,
Tiraram a calma.
Quebra-cabeça de ilusões surreais,
Abismos de um ser metamorfoseado em mim...
Desfazem paradigmas multifacetados,
(Re)Inventam a música e sua melodia,
Desdobram-se em notas, palavras: essência...
Transversalmente acorda os sentidos...
Travessia de palavras...
Percepções sensoriais que aguçam
O sacrossanto pecado de existir...
Sorvo o perfume afetivo,
São historias que duelam com a memória,
Fantasmas perdidos, esquecidos, sufocados...
Desalinho de contornos,
Impressionismo míope,
Tateiam-se as formas...
Não se contenta, nem conforma...
Busca que seduz, se transforma...
Debulham-se lágrimas...
Emoções em abertas chagas...
Suscetibilidade indolor,
Olhos vendados para o amor...
Ferem espinhos...
Sangra o coração...
Labirinto que conduz ao centro:
Abismo e cruz...
Música que toca
Perfume e luz!  

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Leia-me



- Leia-me! - Diz o poema que sou..
Seu tom imperativo revela insanidade fragmentada
Há uma busca implacável do desejo,
Uma urgência perturbadora que me despeja em palavras
E elas não se prendem a rimas, nem a regulamentos vários
As palavras despem-me
Desbravam-me as entranhas
Devoram-me por inteiro
É a infindável busca do sentir e do sentido
Do viver e do vivido
Do amar e do amado
Sons de palavras que ecoam
Gosto de palavras que engulo
Imagens de palavras que guardo
Todas elas me descrevem
Debulham-me em metáforas afónicas
Roucas e descabeladas pelo caos
Na desordem do sentimento mais ousado
Dá-me tudo e dá-se por inteiro
Despudoradamente
Êxtase: mergulho no abismo no poema
Que comigo faz-se face em sentido
Desalinha a respiração... Metamorfoseia a razão...
Dentro e fora: tempo-espaço indefinidos
Céu e mar fundem-se... contemplam-se...
Em mim... Em ti... Em nós!