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domingo, 12 de junho de 2016

Poesia ao mar



Poesia rascunhada numa folha de papel qualquer
Alquebrada... Estilhada pela vida (des)medida
Encolhida pela frialdade da realidade que tanto se quer
A um canto insignificante de mim, fui esquecida

Cansada do vazio, vi-me só... imersa no frio
Só me restavam rastros, restos, migalhas
Perdidas à beira do abismo – num calafrio
Sem saber para onde ir – tolhida por tantas falhas

Despertar de sensações ignóbeis e insignificantes
Ative-me e me contentei  com tão pouco
Vi-me multifacetada, extirparam-me as asas aflantes
Despiram minha alma e o poeta ficou rouco

Sem versos que lhe trouxessem amor
Sem flores, que além de viço,
Transbordassem perfume e cor
Sem olhos que percebessem o feitiço

À deriva em pleno mar bravio
Sabia que haveria um instante remoto
E que um farol poderia guiar o meu navio
Ainda que meu destino fosse ignoto

Adormecia à espera de milagre e alegria
Mesmo morrendo lentamente na travessia
Lancei, de madrugada, garrafas ao mar
Com poesias - palavras precisavam viajar

Ao vaguear por águas menos turvas
Vi o reflexo de uma alma errante
Que se delineava no espelho ondulante
Ah... Quisera eu discernir contornos... curvas

Ah... se houvesse tempo para mergulhar
No mundo insondável e inexorável
E alçar voos... ir além do imponderável
E depois da tempestade, achar porto – acordar!

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Peter Pan




 "Leituras noturnas.
Noites infinitas.
Uma paz esclarecedora.
O som do silêncio.
Vultos de sombras,um parecer da lua.
Uma árvore abraça um menino.
Um menino abraça o escuro" (CAL)

Em busca da terra do nunca, uma sombra dança
Mistura o comum ao imortal
Debulha-se inteira e intensa na arte surreal
Longe, o sonho, nesta corda bamba, balança

Adentro na fantasia e sinto - também posso voar
Compor mosaico por alhures coloridos e perdidos
Despejar perfumes, sabores, cores e segredos
Dedilhar formas, contornos, palavras além do mar

Noturno, taciturno – espelha a lua no céu escuro
Utopia de infância – olhar soturno
Seu medo é um enigma diuturno
O degredo de um porto seguro

É preciso voltar a ser criança
E ser menino mesmo sendo homem
E , na caixa dos mistérios, achar a herança:
Raízes negadas,  subjugadas que consomem

Rodopia em voo o pássaro de asas perdidas
É um anjo torto, barroco, sacrossanto
Deixa nas mãos do menino razões esmaecidas
Prontas para silenciar a foz e o pranto

Dê-me sua mão... venha comigo...
Dance diante de si, com esta ilusão
Ouça o voz do coração
Seja além de homem, porto, abrigo...

Não tenha medo, esqueça o desespero
É outro tempo, hora de desbravar
Abrir os olhos e deixar a luz entrar
Venha, além de eterno tudo também se faz  efêmero!

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Ousadia


Ousei, um dia, te ver
Além dos limites do saber
Além, muito além do que os olhos podem ver

Ousei te tocar
Ah... tocar o âmago inviolável
Que trancafia sonhos e sombras no insondável


Ousei te ouvir
Ir além das palavras ditas
Além, muito além das dores esquecidas e das flores malditas

Ousei te sentir
Além dos limites do humano
Além, muito além do corpo, à beira do profano

Ousei te querer
Além do possível
Além, muito além dos limites, à beira do imponderável

Ousei ser livre
Ousei ser diverso
Ousei ser meu próprio inverso

Ousei não ser aceita
Não ser santa
Ser antes de tudo humana

Ousei sustentar a voz
Não me calar
Gritar ao mundo que é preciso se expressar: pensar

Ousei ser pequena
Insignificante
E me fazer inteira por um instante

Ousei me achar
E também me perder
Na sombra triste do teu olhar

Ousei ser....
Incomodei
Apenas porque, audaciosa mudei

Ousei tanto nesta melodia
Que me revirei na zona do teu  conforto
Feri e fui ferida pelo punhal cruel da ousadia

Ousadia de me deixar ir além
Além do próprio ser
E do humano me desprender

Ousadia de me permitir voar
Nas asas aflantes
Que ousei aos meus devaneios moldar

Perdoe-me... Perdoe-me a ousadia
De ser mulher, desdobrável
Ser flor e também espinho é razoável

Perdoe-me, menino de alma errante
Esqueci-me de que só podia ser minha essa ousadia
Que não poderia ter mais nada além de mim e da poesia